Eleições Norte-Americanas

No dia 08 de novembro de 2016 ocorrerá nos Estados Unidos a 58ª eleição presidencial do país, quando será escolhido o candidato a substituir o democrata Barack Obama na Casa Branca. Os dois principais candidatos, que se qualificaram até a fase final do processo, são Hillary Clinton, ex-secretária de Estado, ex-senadora e também ex-primeira-dama dos EUA, representando o partido democrata, e Donald Trump, empresário e bilionário americano, pelo partido republicano

O processo eleitoral foi marcado por constantes polêmicas envolvendo os dois candidatos, que possuem altos índices de impopularidade. Na reta final das eleições as tensões e incertezas ficaram ainda maiores.

Como funcionam as eleições americanas

Desde a independência, o país realiza com regularidade eleições democráticas para definir o representante a ocupar a presidência. O sistema eleitoral, formulado pelos federalistas, passou por algumas poucas alterações em sua história, possuindo como principais características:

  • Voto Facultativo – os cidadãos americanos não são obrigados a comparecer ao escrutínio e não são penalizados de qualquer forma por se absterem da votação. Por esse motivo, o simples convencimento do eleitorado não é suficiente para o bom resultado eleitoral. O entusiasmo dos votantes, portanto, é decisivo para o sucesso (é preciso convencer e mobilizar).
  • Votação Indireta – a votação é feita em duas fases. Os eleitores transferem seus votos aos delegados que, por sua vez, depositam votos nos presidenciáveis.
  • Proporcionalidade “delegado” – “população” – o Colégio Eleitoral é formado hoje por 538 delegados, distribuídos proporcionalmente à população de cada estado.
  • Winner Takes it all – excetuando-se os estados de Maine e Nebraska, a votação dos delegados aos candidatos à presidência da República segue a lógica majoritária. O que significa que o candidato que obtiver a maioria simples dos votos dos delegados dentro de um estado leva consigo o equivalente a todos os eleitores desse estado.
  • Tradição bipartidária – O modelo eleitoral americano influencia o voto racional centralizado nos dois maiores partidos. Quando um cidadão vota em seu candidato, instrui o delegado de seu estado em quem votar no Colégio Eleitoral, não permitindo, assim, “aventuras ou protestos” quanto à escolha dos nomes de terceira via. Com isso, além de se ganhar o voto popular em um determinado estado, deve-se conseguir também o dos delegados, espalhados pelas unidades da Federação. São necessários para ganhar a eleição 270 votos dos 538 delegados no Colégio Eleitoral.
  • Swing States e Safe States: A maioria dos estados norte-americanos possuem tradição político-partidária muito enraizada, lhes conferindo previsibilidade em seu comportamento eleitoral – são comumente denominados de Safe States (“Estados assegurados”) ou Strongholds (Fortalezas). Poucos estados, no entanto, não contam com as mesmas tradições partidárias, decidindo seu candidato vencedor na reta final das eleições – são chamados Swing States (“Estados indecisos”). Os candidatos costumam gastar mais de seus recursos políticos e financeiros nesses estados indecisos;

Eleições 2016

As eleições primárias começaram no dia 1º de fevereiro de 2016, no Iowa. Até o dia 14 de junho, democratas e republicanos mobilizaram-se em cada um dos 50 estados para eleger mais delegados. Terminadas as primárias, cada partido realizou sua convenção para oficializar seus candidatos.

Durante as primárias, o Partido Democrata apresentou sete nomes como prováveis candidatos, sendo os principais Hillary Clinton, sucessora natural de Obama, e Bernie Sanders, senador por Vermont, com boa preferência dos eleitores do partido mesmo se definindo como socialista. Clinton conseguiu o número necessário de delegados em junho, sendo a primeira mulher a ser candidata à presidência por um partido grande no país. Tem como vice Tim Kaine, senador pela Virgínia. 

Já o Partido Republicano apresentou dezessete pré-candidatos. Os principais concorrentes eram Donald Trump, Ted Cruz, senador pelo Texas; e Marco Rubio, senador pela Flórida. Todos possuíam um discurso parecido de política externa protecionista e isolacionista, bem como atuação em oposição ao grupo Estado Islâmico. Ted Cruz saiu na frente, surpreendendo ao derrotar Trump na prévia eleitoral em Iowa, importante Estado para demonstrar a força do candidato. Em junho, no entanto, Trump conseguiu o número necessário de delegados, mas somente no mês seguinte, após superar divergências dentro do próprio partido, foi confirmado na convenção. Como vice foi escolhido Mike Pence, Governador de Indiana. 

A maioria das projeções indicam a eleição de Hillary Clinton, apesar de algumas pesquisas terem apontado para a virada e vitória de Trump após a polícia federal americana (FBI) ter anunciado que voltou a investigar o uso de servidor privado de e-mail por Hillary quando secretaria de Estado.

No entanto, mesmo que Trump consiga apoio popular e vença em algum dos importantes swing states, como Ohio, Flórida e Pensilvânia, o mais provável é que o republicano seja derrotado na eleição indireta.

A regra do winner takes it all e a existência de duas fases de votações acabam por gerar algumas distorções. Nesse sentido, o voto popular não é o único fator a ser levado em consideração para a obtenção do êxito eleitoral, mas também a distribuição destes votos entre os estados. Os democratas possuem vantagem nesse quesito uma vez que possuem melhor distribuição de simpatizantes entre os estados mais populosos, enquanto os republicanos, embora dominem mais estados, geralmente são preferidos pelos estados menos populosos e, consequentemente, com menos delegados em jogo.

O fim da corrida eleitoral, embora ainda mais tenso, permanece idêntico ao seu começo: dois candidatos com baixa popularidade e imagens públicas questionáveis tentando convencer um eleitorado extremamente desanimado para participar das eleições. A retomada das investigações contra Hilary em relação ao uso de seus e-mails pessoais será a principal ferramenta retórica de Trump nestes próximos dias, enquanto Hilary deverá intensificar suas críticas às antigas e notórias práticas financeiras de Trump que envolvem sonegação de impostos e calote a investidores.

Com tantas polêmicas em torno dos candidatos, sairá vencedor não o presidenciável que melhor mobilizar seus simpatizantes, mas também o que conseguir levar os opositores de seu rival às urnas. Eleitores que antes pouco confiavam em Hilary e sempre detestaram Trump, agora serão chamados às urnas para votar não pela democrata, mas sim contra o republicano, e o contrário também será verdadeiro.

Essas eleições representam o momento de maior radicalização político-ideológica da história recente dos EUA, colocando em conflito um projeto político liberal-social, representado pela continuidade da gestão democrata, e um conservador de governo republicano com a novidade de gestão por um empresário.

Responsabilidade Técnica:

Equipe Dominium. Por Hannah Souza e Anderson Luiz Dias

 

ANEXO – Comparação de Planos de Governo

Partido Democrata Partido Republicano
Políticas Econômicas Orientação social-liberal:

  • Expansão dos direitos trabalhistas;
  • Valorização do Salário Mínimo;
  • Impostos Progressivos;
  • Expansão do acesso ao ensino público e universalização do sistema de saúde (Obamacare);
  • Incentivo ao uso de energias renováveis;
  • Redução dos gastos com Defesa;
Orientação liberal ortodoxa:

  • Aumento da participação do mercado, em detrimento do Estado, no provimento de bem-estar (serviços de saúde e educação);
  • Redução generalizada dos Impostos;
  • Redução ou flexibilização dos direitos trabalhistas;
  • Congelamento do salário mínimo;
  • Aumento dos gastos com Defesa;
Políticas Sociais Orientação liberal:

  • Legalização do aborto;
  • Restrição à compra e porte de armas;
  • Legalização e apoio aos casamentos homossexuais;
  • Apoio a legalização dos imigrantes já residentes nos EUA;
Orientação conservadora:

  • Manutenção da criminalização do aborto;
  • Manutenção do atual regime para compra de armas;
  • Casamento apenas para casais heterossexuais;
  • Deportação dos imigrantes ilegais já residentes nos EUA.